- Que cara é essa? Por que tens falado tão pouco?
Oi, querido. Essa cara é de quem passou a noite toda chorando. A cara de quem a deu pra bater e recebeu uma pancada que dói até hoje. Essa ausência de sorriso é só consequência dos inúmeros questionamentos que trago no peito, dessa vida sem sentido que vivo porque é preciso e que é preciso porque, sim, eu vivo, apesar, afinal. Bateu cansaço de escalar montanhas intermináveis e despencar em queda livre. Bateu uma tristeza de apertar a alma porque eu senti saudade das três da tarde até a hora de conseguir dormir. Aí eu prefiro guardar palavras, sabe? Também cansei de falar, falar, falar e nada resolver. Cansei das minhas frases repetidas, das inúmeras explicações que inventei pra me convencer da necessidade de perdurar nesses sentimentos ou para vê-los perdurando em mim. Cansei também das autocríticas e de xingá-lo, nunca me faz mudar em nada mesmo. E olha, ta vendo essas olheiras? Essa cara amassada? É que atrás disso tudo tem algo machucando, torturando, invadindo. Talvez seja excesso de lágrimas, porque eu também cansei de chorar em vão. Tá bom, confesso, vez ou outra ainda as aceito pelas bochechas, me engano de que depois delas me sentirei melhor. Mas minto. Minto porque o que quero é me sentir sofrida, me sentir arder. Uma vez esse lance de se entregar a dor deu certo pra mim e é por isso, também, que eu calo. Tu me conheces, amigo. Sabes que quando eu falo muito me confundo, me contradigo. Tenho aceitado calada pra me confundir menos o confundindo mais. Ta entendendo? Não, né? Mas não te preocupa, eu também não entendo. Eu chorei essa madrugada porque não me entendo e porque percebi que talvez isso nunca aconteça. Me senti bem perdida ao constatar o tempo que provavelmente perdi ou tenho perdido. Ele voltou e eu não voltei, amigo. Entendeu? Ainda tô a espera do que se foi ou, até mesmo, do que se vem. Como eu posso não chorar? Como eu posso espalhar tantas palavras mal encaixadas por ai? Essa minha cara é de quem chora escondida pra não ter que explicar tanta coisa sem sentido. É isso.
- Nada não. Só é sono!

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