A chuva tocou a janela do seu quarto naquela tarde, por um instante ela sorriu, adorava o cheiro dela quando tocava o chão e o clima frio tão raro naquela cidade. Ela gostou de sentir preguiça, gostou de ter um filme pra assistir, gostou de ter motivos pra comer besteiras sem culpa. Gostou tanto de tudo que quase esqueceu o motivo de estar trancada no quarto e tão só.
Um dia antes ela o viu. Sem impacto, sem olhos arregalados, sem surpresa. Não houve reação alguma da parte dele que pareceu nunca ter sentido nada além de um algo que passou e enterrou. Depois de meses se martirizando ela deu de cara com quem menos queria, ou pelo menos fingia não querer. "Não sei e nem quero saber" embalava toda resposta que dava a qualquer pergunta que tinha o nome dele ou qualquer coisa próxima a sentimento e relações amorosas.
O histórico do computador denunciava sua farsa. Era a primeira e última coisa que fazia ao se conectar: torturar-se. Milhares de fotos em novos álbuns que já não tinham seu aval ou o cuidado em organizar pra ele e sua preguiça sem fim. Novos sorrisos perto do dele que de tão antigo doía no peito, olhos ressacados, iludidos e perdidos. Quantas festas por mês ele era capaz de frequentar? Novos e velhos amigos e nem sombra de alguma saudade dela. O cabelo havia crescido e estava mais desarrumado que o normal, o rosto talvez tivesse novos traços ou alguns que a paixão havia impossibilitado de enxergar, talvez não continuasse tão lindo, mas, ainda assim, era lindo o bastante. Lindo o bastante pra continuar restando ali.
O percurso da recaída continuou e a próxima fase era sempre a das mensagens nunca apagadas do celular.. se resumia basicamente em uma releitura decadente das palavras lindas que um dia ele escreveu provavelmente sem se dar conta da dimensão que elas tinham. Ela sabia no fundo que eram só frases ensaiadas, ele já devia ter enviado as mesmas mensagens para milhares de garotas que, como ela, acreditaram no príncipe que nunca passou de sapo e podiam estar num quarto qualquer, de uma casa qualquer, chorando com a chuva, chorando sem ela ou nem pensando mais nisso. A vida segue, não é mesmo?
O sol havia decidido não mais voltar naquele dia, as lágrimas dela também. Queria uma vida sem esses descasos, uma vida sem nostalgias, uma vida sem pessoas que, como ele, partiam na primeira oportunidade. Ela não sabia, mas queria sim saber. Quando, afinal, as coisas começariam a dar certo?

Nenhum comentário:
Postar um comentário