A flor no deixou com os corações num vazio, foi levada sem
aviso prévio, foi embora sem se despedir. Eu to aqui juntando os cacos dessa
ausência, juntando os cacos de quem se quebrou inteiro. E eu também estou
partida, eu também estou vazia perdida no caos, perdida nos sorrisos do mundo
que parecem me matar mais ainda de tristeza. Acho que eu queria que o mundo
todo sentisse essa dor, queria que o mundo todo se sensibilizasse com a
despedida remota que nos machuca tanto. Queria ser egoísta e que esse meu
egoísmo fosse levado em conta, só pra ver que o mundo olhou pros nossos pedaços
no chão e sentiu o que estamos sentindo. Queria não sorrir agora, não ouvir
piadas, não achar um filme engraçado, só pra depois não me sentir culpada de
ainda ver graça no mundo que perdeu a melhor pessoa que eu já conheci. Queria abrir os olhos desse pesadelo que não acaba por mais que eu tente e tê-la de volta com sua frases, seu jeito, seus sonhos. Sonhos. Queria que seus sonhos fossem realizados não por necessidade de honrá-la pós partida e sim pela única certeza de que ela merecia qualquer coisa que desejasse em vida. Queria sua fé, queria sua força, sua garra, queria ouvi-la falar que eu precisava aprender a cozinhar e que o seu neto seria feliz comigo de qualquer forma. Queria as frases sobre nossos amigos, os conselhos tão ingênuos e tão certos, o abraço apesar dela estar suada e relutante. Queria poder rir das suas implicâncias, do seu amor desmedido e da sua sinceridade sem fim. Queria tudo isso sem sentir saudade, tudo isso sem sentir a perda. Como
pode tudo se ajeitar depois? Meu coração não tem resposta, não tem esperança
quando olha os dois pares de olhos negros que tem sentido mais do que eu o
adeus que a flor nos deu. Ela que não teve filhos, mas que os criou como seus,
os amou como seus. Foi mais mãe que muita mãe por aí, deu seu sangue mesmo não
sendo do mesmo sangue. E eu só quero que ela descanse em paz, que ilumine do
lado de lá o que sempre iluminou aqui. Sem clichês: ela era um anjo em vida! E
eu sei que a tormenta vai passar por mais que não pareça, eu sei porque eu a
ouvia falar que nunca nos desampararia. Ela não quebrava promessas.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Alguns Tons, Minha Valsa.
O vento nas novas cortinas vinha anunciar um novo dia, pude ouvir passarinhos sussurrando bom dia e me cobrindo de coragem. Os tons vermelhos pareciam ter tomado conta da minha
fortaleza e o meu cabelo só queria respirar. Levantei tocando meus traços
espalhados pelos quadros, retalhos e papéis de parede, sentindo orgulho de mim.
Nos meus pés o tapete preferido entre todos os outros que trouxe pra casa - talvez
a minha mania de ter pés agasalhados tenha ultrapassado os limites. Ter muitas manias requer desdém, requer leveza, então dei de ombros. Eu desfilava na ponta do pé do quarto à cozinha, desfilava meu pijama surrado com cheiro de neném, com cheiro de
amor. Desfilava minha perna que implorava nova depilação contra vontade de todos
os nervos do meu corpo. Às vezes podia jurar que era uma péssima ideia ter
espelhos por todo lado desse apartamento, outras vezes eu só compreendia o
motivo inicial: ver a pessoa que concretizou alguns sonhos. As cores que eu via
em tudo, os mimos que me explicavam, a casinha de cachorro finalmente com
dono. Meu olhar com rumo, por fim. Corte novo, roupas
novas, meu estilo, meu espaço. Meu sonho.
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