terça-feira, 26 de junho de 2012

Ela que se amou.




Pegou o telefone, foi pra debaixo das cobertas e ensaiou algumas vezes o que falaria após o “alô”. Pensou que aquela dor que travava sua garganta não cessaria enquanto uma ligação não fosse feita. Tinha cada vez mais certeza que era mais fácil se entregar ao desespero do que continuar fugindo de algo que ainda lhe pertencia tanto. Aquele amor sempre teve milhões de motivos para acabar e sempre sobreviveu, por que seria diferente agora? Talvez fosse mais prático e menos dolorido entregar os pontos de uma vez. Como ela era boba às vezes.

Só que daquela vez ela não ligou. Colocou o celular sob o travesseiro e apenas chorou. Chorou como se fosse a última oportunidade de colocar todas as angústias pra fora e em lágrimas. Ela sempre fez o tipo de quem tem pressa pra viver. Foi angustiante àquelas horas em que o choro não parava e o peito apertava sempre que lembrava do que lhe fez feliz e ao mesmo tempo a menina mais triste do mundo. É engraçado como a dor nos faz esquecer o motivo que nos fez preferir sobreviver com ela do que com uma ilusão, a dor provoca uma confusão que acaba inundando, além dos olhos, a mente.

Fazia um bom tempo que não se sentia mais a mesma, quanta frieza, quanto desdém, quanta indiferença. Tanto tempo dedicado a alguém que só lhe enganou, alguém que lhe fez promessas e não olhou pra trás ao quebrá-las. Aquele travesseiro parecia ser o único capaz de compreender a essência daquele choro mudo. Parecia ser o único capaz de só confortá-la ao invés de fazer perguntas que ela nunca soube responder. E como saberia? Só questionamentos lhe rondavam nesses momentos. Ou melhor, desde que se viu enganada.

Agora, quase no fim desse “autodesabafo”, ela parecia compreender a riqueza desse momento, a sua riqueza. Entre tantas coisas, sofrer nos ensina. Quem sabe estas recaídas diminuirão, quem sabe não. A única coisa que ela desejava agora era uma manhã sem olheiras e olhos vermelhos. Certos momentos não merecem extensão e ela sempre soube disso. Ela sempre teve pressa.

Fechou os olhos: "hoje continuarei sendo mais minha que dele" e finalmente dormiu.

2 comentários:

  1. Sempre existe esse momento dessa virada. É impressionante. Algumas são meio alarme falso, mas se você tentar lembrar direitinho sempre tem uma virada mesmo.

    ótimo texto, como sempre :)

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  2. se você tiver paciência pra esperar e tiver certeza do valor que tem, esse momento chega.. e chega com força! hahaha

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